terça-feira, 2 de agosto de 2016

Água: novos para o que tem fim

O desperdício de água era invisível até o encanamento da máquina de lavar roupas dar problema. Então, a estilista Juliana Igarashi Franco, 39, viu que poderia reutilizar, no cotidiano da casa, a água jogada pelo cano. A cada lavagem de roupa, uma vez por semana, ela armazena a água em seis ou sete baldes: o suficiente para limpar o chão, por exemplo. “Quando me envergonhei daquela situação (de desperdício), comprei a causa”, relaciona.
Juliana vai tornando seu pequeno mundo sustentável. Também passou a usar a máquina de lavar mais para centrifugar. Percebeu que, se deixasse parte da roupa de molho, aproveitaria aquela água para limpar a sujeira que a cachorra faz. Outra: a água de um dos banhos, ela guarda em uma bacia e reutiliza no vaso sanitário. “Fui descobrindo formas de aproveitar”, compartilha no Facebook ou entre amigos que se admiram do assunto. Nas conversas da Capital, Juliana conta se sentir “um E.T. Ninguém economiza (água) ou está falando disso”.
 
De costas para a seca
De costas para o semiárido e com vista para o mar, Fortaleza não enxerga o fim das águas. Nem sente vergonha, ainda, de lavar a calçada ou o carro com água potável. Não sentiu sede nem precisou beber barro, feito o Sertão. Ainda. O Governo do Estado evita, a todo custo, um racionamento de água na Capital e Região Metropolitana. De agora até março de 2017, na esperança que chova e – antes disso - que se mudem comportamentos, projeta investir R$ 64,1 milhões em 11 ações para reduzir em 20% o consumo de água.

O Plano de Segurança Hídrica de Fortaleza e RMF, divulgado no dia 26 de julho, mostra, à Capital, que só resta multiplicar o (pouco) que se tem. A fonte secou: o Castanhão, principal açude para o abastecimento de Fortaleza, está com menos de 8% da capacidade. O futuro manda dizer, pelo secretário de Recursos Hídricos do Ceará, Francisco Teixeira: é urgente aprender a viver com menos água.

“Em cada casa”, aponta, “vamos ter que aprender a fazer jardim com essências da caatinga, não aguar grama com água tratada...”. A mudança vale, igualmente, para os grandes consumidores. Assim como a estilista Juliana Igarashi viu que poderia sanar o desperdício no cotidiano, a agricultura, a pecuária e as indústrias do Estado, orienta Teixeira, precisam descobrir novas formas de usar e economizar água: “Todos têm sua cota de responsabilidade”.

Questão de consciência
E não é uma mudança até a próxima chuva. Dos governos aos cidadãos, passando por empresários e produtores, a gestão das águas é perene. Uma educação que pode custar mais caro. Em São Paulo, o racionamento foi um modo de educação para o uso sustentável da água, cita João Suassuna, engenheiro agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco. Aprenderam pela necessidade. A seca é a cartilha. “O que está faltando, no Nordeste, é a gestão do recurso hídrico e o povo tem que botar na cabeça que a água é um bem natural finito e tem que ser usado com muita parcimônia”, afirma o especialista.

A necessidade de mudar hábitos, vivencia Juliana há quatro anos, chegou antes da conta de água: “Não é o dinheiro, é a atitude… Tenho o prazer de fazer porque tenho a consciência em paz”. Ela descobre transformações maiores a partir de seu pequeno universo. “Uma pessoa só faz a diferença. Até porque, quando tiver minha família, quero que ela cresça como vivo hoje: com o mínimo de impacto possível”, espelha. “Eu me senti muito melhor valorizando aquilo que a gente tem. A conta, quem paga é todo mundo”, lembra.

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