terça-feira, 17 de março de 2015

VLT divide opiniões após cinco meses de operação

17.03.2015

O Veículo Leve sobre Trilhos de Sobral tem sido muito útil aos seus 1.800 usuários diários, mas ainda apresenta alguns problemas estruturais

vlt
Apesar de facilitar a vida de muitos, a obra ainda é alvo de críticas
FOTO: KARISON MESQUITA
Sobral. Desde que começou a circular pelas em Sobral, o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) tem sido o único transporte usado por Maria das Dores Sarmento para ir e vir todos os dias ao trabalho. Moradora do Bairro Cohab II, um dos mais populosos da cidade, a doméstica diz que tem economizado bastante, já que a passagem ainda não é cobrada. A velha bicicleta, muitas vezes usada para se deslocar pela cidade, também foi deixada de lado. "Eu moro bem perto da estação do meu bairro, que fica longe de onde eu trabalho. Com o VLT eu chego cedo e volto meio-dia, sem gastar nada. Quando eu tenho folga na semana, ainda vou visitar os parentes em outro bairro, o que não dava pra fazer com os três filhos, sem gastar", afirmou.
Após três anos de espera, o VLT entrou em fase de testes em outubro do ano passado. A chamada operação assistida, programada para ser realizada por cerca de seis meses, colocou, literalmente, o "trem nos trilhos", numa ação normativa a todo sistema de transporte sobre trilhos urbanos de passageiros, mas sem seguir um atendimento regular. O momento ainda é de ajustes e regulagens numa simulação de operação comercial mas sem o compromisso formal com horário e regularidade. Segundo a Companhia Cearense de Transportes Metropolitanos, o transporte é o primeiro no País a ser instalado em uma cidade do Interior com circulação apenas urbana, o que o difere do instalado na região do Cariri, de circulação urbana mas com ligação entre as cidades de Juazeiro do Norte e Crato.
Com velocidade máxima operacional de 60km/h, o VLT corta parte da cidade levando todos os dias, para o trabalho, o auxiliar administrativo Josias da Silva Paixão, que assim como Maria das Dores, vê no novo transporte público a resposta para os gastos com passagens, mesmo que temporário. "Eu tive até uma certa resistência em andar de VLT, acho que por falta de informação, mas a curiosidade me fez experimentar, e gostei. Sei que em breve teremos que pagar, mesmo assim a cidade ganha com essa opção", disse.
Ressalvas
Se de um lado o passageiro, que usufrui do VLT todos os dias, diz que aprova a proposta; do outro, moradores que foram diretamente atingidos pela demorada obra de requalificação das vias públicas para a instalação do equipamento, se sentem prejudicados. Em alguns pontos do percurso, como na Avenida John Sanford, onde árvores tiveram de ser derrubadas, boa parte da via se transformou numa espécie de "gargalo", pois a ciclovia VLT, cedeu espaço aos trilhos, colocados a poucos metros das calçadas das casas. O momento é de tensão, quando o VLT, com capacidade para 230 passageiros em seus 29 metros de comprimento, divide espaço com condutores de veículos, motociclistas, transporte de carga, ciclistas e pedestres.
A coordenadora do curso de mestrado em geografia pela UVA, Virgínia Holanda, trata de questões relacionadas à problemática urbana, e chama essas e outras áreas identificadas ao longo do percurso do VLT, de territórios diários de tensão, pois, segundo ela, ferem a Política Nacional de Mobilidade Urbana, "que objetiva a integração entre os diferentes modos de transporte e a melhoria da acessibilidade e mobilidade das pessoas e cargas no território do município. Por exemplo, as calçadas, que seriam o lugar de segurança para quem anda a pé, também são territórios do comércio informal, e de estacionamento para motos e carros", alerta.
Para Virgínia Holanda, "as ações de gestão pública em Sobral demonstram preocupação com o crescimento da cidade e não com o desenvolvimento, pois isso levaria em conta as pessoas, o que não acontece. O VLT não considera nem mesmo a integração entre os diferentes modos de transporte, posto no Plano Nacional de Mobilidade".
Iniciadas em março de 2011, com previsão de conclusão em 18 meses, as obras de implantação do VLT sofreram paralisações, por parte do Ministério Público do Estado (MPE), por apresentarem, segundo o MPE, problemas nos projetos e indenizações. Na época, as críticas também apontavam para a falta de estudos de impactos ambientais e os valores orçados, que saltaram de R$ 54 milhões (2010) para R$ 90 milhões (2014).

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