domingo, 28 de agosto de 2016

Transplantes. Histórias cruzadas

O que a medicina chama de “revelação” a vida diz por encontro. Quando o estudante Gabriel de Oliveira Damian, 19 anos, e o farmacêutico André Teixeira Matos, 42 anos, puderam, finalmente, se abraçar, na noite da última sexta-feira, não havia mais a morte e a distância. Apenas passou a existir um no outro. “O abraço são trocas de energias. Você se sente acolhido, o coração próximo um do outro”, expressa André. “Pra mim, ele é um irmão. O sangue dele está em mim”, une Gabriel.
A revelação do receptor e do doador de um transplante de medula óssea encerrou o XX Congresso da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO) e é considerada inédita no Ceará. Para os profissionais envolvidos, é um momento único. “Só temos um objetivo: salvar vidas. É a razão pela qual nosso trabalho existe”, sintetiza o médico Fernando Barroso Duarte, da SBTMO e à frente dos núcleos de medula óssea do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce) e do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC). Mas o encontro entre Gabriel e André vai além da importância central para a medicina: mostra a trama de que é feita a vida.

A doação
Até Gabriel adoecer de um tipo de leucemia que demanda o transplante, quatro histórias corriam paralelas pelos dias.

A do próprio adolescente, que tinha muitos amigos e brincava de bola e pipa nas ruas de um bairro da zona oeste do Rio de Janeiro; que era muito vaidoso e passava “meia hora pra pentear o cabelo”; e que gosta de aventura.

A da mãe de Gabriel, Kelen Cristina Silva de Oliveira da Fonseca, 38 anos, dona de casa que começou a estudar Psicologia; que casou outra vez e também se tornou mãe de uma menina; e que tinha todas as respostas e explicações para o filho, mas não gostava “de falar a palavra câncer”.

A do André, que nasceu e se criou no Rio, mas é filho de um pai cearense que acordava de madrugada para socorrer um vizinho e armava uma rede na sala para dar descanso a quem chegasse; que é consultor farmacêutico de Oncohematologia e doador de sangue e plaquetas desde os anos 90; e que já viu muito sofrimento e milagre “de perto”.

E a da técnica em hemoterapia e hematologia, pedagoga e psicoterapeuta Francisca Gomes Rodrigues, 49 anos, que acha que “toda profissão tem a ver com a vida” e, para ajudar a salvar um menino chamado Miguel, já voou com uma medula daqui até Curitiba no mesmo ano em que perdeu a mãe; que aprendeu com a vida “que tem sempre uma coisa compensando a outra” e ri e chora ao mesmo tempo se abraça um paciente que reviveu; e que todo mundo chama de Fran e diz que ela é “muito sonhadora”.

Essas quatro histórias se cruzam no infinito que Gabriel, Kelen, André e Fran conhecem e definem por amor (ao próximo).

Gabriel e Kelen atravessaram “mil exames”, e dores, e medos até algum diagnóstico ter a certeza da leucemia. Era agosto de 2012, quando o adolescente, com 15 anos, foi internado no Instituto Nacional do Câncer (Inca), para tratamento e espera por nova medula. Até outubro de 2013, quando o transplante foi realizado, aconteceram dias de altos e baixos. “Ele me perguntava: ‘Mãe, você acha que eu vou morrer hoje?’”, lembra-se Kelen.

Entre as respostas, que as mães dos leitos vizinhos também buscavam, ela soube que os filhos “não precisavam de nós só na hora de segurar a mão, na hora da injeção. Eles precisavam da gente tendo uma vida normal, mesmo que fosse ali… Tenho que viver o dia de hoje como se fosse o último e esse último tem que ser o melhor de todos. Nós choramos umas com as outras, mas também nos acalentamos. Não é só coisa ruim”, espelha.

Na outra ponta, André e Fran também sentiam o doer (alheio). Ele restaura: sempre se sensibilizou por quem espera a doação de um órgão, uma segunda chance. “Olho as pessoas pelo coração”, atalha. Imagina o alívio dos que dão um passo na imensa fila de espera por transplante. Por isso se tornou doador de medula óssea em janeiro de 2013.

Foi a Fran quem realizou o cadastro de André e participou do percurso até a medula alcançar Gabriel, do Hemoce ao Inca. Desde 2008, ela cuida do registro dos doadores e das amostras colhidas para investigação. “A gente não mede esforços”, dispõe-se, indo adiante. Para Fran, as pessoas que insistem pelos exames (e pela esperança) no serviço público de saúde precisam ainda “de alguém que a abrace naquele momento. Eu quero ser sempre essa ponte… Perdi minha mãe, recentemente, e vi a situação dela no serviço público. Ela sentiu dor. Vou tentar fazer diferente porque também senti dor e não quero essa dor pra ninguém”.

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