sábado, 30 de julho de 2016

Denise Fraga apresenta espetáculo Galileu Galilei em Fortaleza e fala sobre teatro em tempos de crise

O humor refinado deDenise Fraga é uma marca forte nas personagens que a atriz dá vida. Conhecida popularmente por papéis na TV, como quando fazia o quadro Retrato Falado, noFantástico, nos últimos anos, ela tem dedicado tempo ao teatro, ao cinema e a séries de televisão. Neste fim de semana, Denise voltou a Fortaleza para apresentar o espetáculoGalileu Galilei (dirigido por Cibele Forjaz), uma peça assinada pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht, por quem a atriz declara toda sua admiração.

Na obra escrita entre 1937 e 1938, o autor narra a vida do cientista italiano que, no século XVII, precisou negar suas crenças devido a pressões da Igreja Católica durante a Santa Inquisição. Denise mostra que os fatos e os diálogos de décadas atrás atravessaram os anos mudando os protagonistas e os cenários, mas que permanecem "atualíssimos", como define. Vivemos fatos repletos de contradições, para os quais Brecht olharia com sustos, caso vivo fosse, e despejaria toda sua crítica social em forma de ironia.
 
Como você volta para o teatro em tempos de crise?
 
Eu acho que talvez até pela crise, porque, de alguma maneira, a peça te dá esperança de se resgatar. De a gente entrar em contato com os nossos mais puros ideais. O que o Brecht faz? Ele faz a gente ver que somos todos Galileus. Ele escreve esse personagem, essa única biografia que ele escreveu, e eu suspeito que ele tinha quase uma fixação por esse personagem, porque ele também teve que lidar com esquemas de poder, ele também teve que negar verdades para não ir para certas fogueiras. Quem de nós não? Quem de nós não nega cotidianamente as nossas verdades para ficar bem com o chefe, para receber aquela promoção, em nome do leite das crianças? Você vai cedendo. Só que vem a peça e faz você, de alguma maneira, perceber “até onde?” Até onde eu cedo? O que eu acho que é uma coisa comum a todos nós. Todos nós cedemos. Mas eu sinto que a gente tá de um jeito que a gente começou a justificar tudo por dinheiro, numa sociedade onde o que vale é o que é rentável e essa linha ética ela tá ficando tão sinuosa que chega uma hora em que você se perde de si.

A peça se tornou uma analogia da nossa realidade, mesmo 60 anos depois da morte do autor?    
 
Exatamente. Aí começou a acontecer uma coisa que foi muito louca. Quando a gente começou a ensaiar a peça, em janeiro de 2015, a peça era atualíssima. Mas aí, os últimos acontecimentos nesse um ano e meio em que a gente tá com a peça, tornaram a peça quase parecendo encomendada. Ela ficou propícia. E hoje a gente vive um dilema que é: eu fico muito feliz em poder falar sobre o que a peça fala em uma hora dessas, mas, ao mesmo tempo, eu fico angustiada com o tanto de coisas que levaram a peça a ficar assim, cada vez mais atual.

É como se nossos problemas estivessem mais retrógrados? 
 
O que acontece é um mar de intolerânca. Se antes tinha essa questão do que nós engolimos de sapo, as caras que a gente faz de paisagem pros absurdos, as concessões, a coisa do poder fazendo a gente ter certas atitudes que a gente não gostaria de ter. E no momento em que a gente vê vários homens públicos do País completamente encharcados em concessões, a situação chegando onde chegamos. E essa tristeza.

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