Vale cortar TV por assinatura e não comer fora de casa. Talvez dê para segurar a ida ao salão de beleza ou adiar a troca do celular. Viagem? Tem muito lugar legal no Brasil, ou até no próprio estado. Então aproveita a promoção de roupas que está prestes a sair da vitrine. Esse é um retrato de parte dos hábitos de consumo do brasileiro sob a crise econômica.
Enquanto números, gráficos e tabelas macroeconômicas, a crise parece algo distante. Mas ela também está no cotidiano. Com o aumento da inflação, do desemprego e do dólar, o poder aquisitivo das famílias brasileiras caiu. O jeito é refazer as contas e mudar hábitos. O POVO conta histórias de pessoas que estão se readaptando a um novo patamar de vida. São da classe média, que representa mais de 50% da população do País.
O Produto Interno Bruto (PIB), termômetro da economia, foi negativo em 3,8% em 2015. Apagou o sinal amarelo e acendeu de vez o sinal vermelho. Ratificou o que a população já havia começado a sentir na pele. O consumo das famílias registrou recuo de 4% em relação a 2014, com queda pelo quarto semestre consecutivo. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
“Eu cortei várias despesas, como TV a cabo, não comprei roupa por um tempo. Só agora estou aproveitando as promoções, até como presente de aniversário para mim mesma”, relata Amanda Macêdo, 29, analista de marketing e secretária executiva.
De janeiro de 2015 a janeiro de 2016, as TVs por assinatura perderam 19 mil clientes no Ceará, conforme dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). No Brasil, foram cerca de 500 mil assinantes a menos no ano passado. Os serviços de streaming, que são bem mais baratos, como o Nextflix, contribuíram para a queda. É uma das piores crises do setor em 25 anos, conforme a Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA).
Amanda também vai ter que ficar mais tempo com seu smartphone. O produto que ela deixou de comprar compõe um mercado com retração de 12,8% ao ano. O setor de eletroeletrônicos como um todo sofre, com queda de 4% no faturamento em 2015 e perda de 37 mil vagas de trabalho no País.
“Essa questão de cortar despesas nos mostra o que é necessário e o que é supérfluo. Damos valor às coisas, pesquisamos mais e acertamos mais nas prioridades. Até o salão de beleza tem sido menos visitado”, conta.
Carro
O ramo de atuação do advogado Rodolfo Bento da Rocha, 30, passou a não ser mais o suficiente para atender às expectativas. Diversificou, mas não resolveu. “Agora em março terei que cortar funcionários na empresa, tinha dois escritórios e uma das salas, que era alugada, teve que ser devolvida. Devolvi também uma sala que havia comprado na planta”, relata.
Por este momento de contenção, passou a comer mais em casa e reduziu as saídas para lazer. “Viagens a passeio nem pensar agora. Troca de carro só está nos meus planos para 2018. Aliás, a gasolina começa a pesar mais”, diz Rodolfo.
Não é a toa que a venda de veículos caiu 30% no Brasil em 2015, frente a 2014. Foi a primeira vez que o País vendeu menos de 3 milhões de unidades anuais desde 2009. No Ceará, a queda foi de aproximadamente 10%, conforme dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores do Ceará (Fenabrave-CE).
Viagem
Parcelar no cartão de crédito foi uma das atitudes do gerente financeiro Rudemberg Pergentino, 32, para suavizar o orçamento doméstico. Ele faz parte do 1,7 milhão de pessoas que ficaram desempregadas em 2015, percentual 42% maior que em 2014. Reduziu a banda de internet de 25 MBps para 15 MBps. Também mudou o pacote de TV por assinatura, deixou o completo e foi para o básico.
Ele revisou o que é prioridade, para se adaptar a nova realidade, após passar cinco meses desempregado. “A empresa em que eu trabalhava chegou a ter 450 funcionários. Depois de ter um corte por um ajuste tecnológico, reduziu mais ainda. Agora, com a crise, está apenas com 49 funcionários”, revela. O gerente financeiro trabalhava em uma empresa do ramo da mineração.
O gasto do brasileiro no exterior em 2015 foi o mais baixo desde 2010. Caiu 32,1% frente a 2015. Rudem compõe essa conta. Deixou de lado o plano da viagem ao Chile. Nem a viagem doméstica saiu do papel. Mas os planos ficaram guardados, ali, no cantinho rabiscado da agenda.
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