sábado, 13 de fevereiro de 2016

Papa e patriarca de Igreja Ortodoxa têm encontro histórico

O mundo cristão acompanha hoje o primeiro encontro entre os chefes das duas igrejas de maior número de fiéis no planeta: o papa de Roma (título pelo qual é chamado pelos ortodoxos, pois existem outros papas) Francisco, da Igreja Católica Romana, e o patriarca de Moscou e de Todas as Rússias, Kiril, da Igreja Ortodoxa Russa. 
O evento se dará, durante duas horas, em uma sala do aeroporto de Havana, Cuba, sob os auspícios do anfitrião, o presidente Raul Castro, aparentemente aproveitando as viagens que ambos os chefes religiosos estão fazendo à América Latina (Francisco ao México, e Kiril a Cuba, Paraguai e Brasil), mas que, na verdade, foram fruto de uma negociação longa e complexa que vem sendo tecida há muito tempo.

No final do encontro, será assinado e distribuído um comunicado comum. O chefe ortodoxo será recebido pela presidente Dilma Rousseff, no dia 19, em Brasília, e no dia seguinte celebrará uma divina liturgia (missa) no Corcovado, Rio de Janeiro.

A repercussão é não apenas religiosa - visto nunca ter havido encontro semelhante, desde que a Rússia se converteu ao cristianismo, no ano 988, pois, logo em seguida (1054), houve a separação entre os cristãos ocidentais (católicos romanos) e os orientais (ortodoxos) - mas, também, tem implicações políticas por projetar a diplomacia da Rússia, no momento em que o país sofre isolamento ocidental, em decorrência dos conflitos da Ucrânia e da Síria.

E isso acirra as desconfianças dos setores conservadores e das chancelarias ocidentais. O local escolhido, Havana, foi considerado neutro pela Igreja Ortodoxa Russa, já que esta tem restrições à Europa ocidental por causa do secularismo prevalecente nela (que estaria levando à redução da influência dos valores cristãos) e sua política de isolamento da Rússia. Um país da América Latina é considerado mais apropriado para esse tipo de encontro, tanto por ser mais distante do “envenenado” ambiente europeu ocidental, como pelo fato de a população da região manter uma fé religiosa ainda muito viva – segundo os ortodoxos.

A escolha recaiu em Cuba por ser mais conhecida pelos russos, desde a época soviética. Ademais, a ilha tem servido para ações diplomáticas de peso, como a recente aproximação com os Estados Unidos, sob o beneplácito e gestão do Vaticano, e pelas atuais negociações para pôr fim ao conflito colombiano. Além de ter recebido visita de três papas, a última das quais foi há cinco meses.

As negociações para o encontro foram extremamente longas, sigilosas e complexas. É que, além dos aspectos políticos, havia o temor de um cisma interno na Igreja Ortodoxa Russa por parte das correntes mais sectárias, contrárias à aproximação com Roma. Francisco se valeu dos préstimos de Vladimir Putin (com quem antes manteve um encontro prévio) para convencer o patriarca.

Segundo o chefe das Relações Exteriores da Igreja Ortodoxa Russa, Hilarion de Volokolamsk, o tema das perseguições aos cristãos será central na conversa entre os líderes.

Esse também é o pensamento de Francisco. A unidade cristã seria imprescindível para proteger os cristãos no Oriente Médio, de onde estão sendo expulsos ou perseguidos pelo fundamentalismo islâmico. Haveria uma ação de diálogo, primeiro, entre as próprias igrejas cristãs, e destas com as correntes não cristãs (islâmicas não-fundamentalistas, judeus, drusos, alauítas etc.) para isolar os radicais. Tudo acompanhado de suporte político, diplomático e material, não apenas dos países ocidentais, mas, também, da Rússia.

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