Plantio de grãos ainda está reduzido no sertão cearense
18.03.2015
A incerteza de que haverá "inverno", após três anos seguidos de estiagem, é um dos motivos do atraso
Iguatu Mesmo com as chuvas que vêm banhando os municípios do Interior a partir da segunda quinzena de fevereiro passado, o plantio de sequeiro (aquele que dependente exclusivamente das chuvas) das culturas tradicionais de milho e feijão permanece reduzido no sertão cearense. A incerteza de que haverá "inverno", após três anos seguidos de estiagem, custo de produção elevado, desvalorização dos produtos agrícolas e dificuldade de mão de obra contribuem para a redução das áreas de cultivo.
A maioria dos agricultores permanece desestimulada a preparar a terra e fazer o plantio de grãos de subsistência. São poucos aqueles que estão no campo, arando o solo e fazendo o cultivo de sequeiro. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontaram, em 2014, redução em torno de 20% da área de cultivo nos municípios cearenses em relação a 2013. Esse quadro deve ser ampliado neste ano.
O governo do Estado ainda não divulgou dados sobre a estimativa de área plantada. Outra preocupação é com o nível dos reservatórios, que permanece baixo, 19,1%, sem recarga significativa. "A terra está molhada, houve chuvas em vários municípios, mas a maioria dos agricultores não mostra interesse em fazer o plantio", observa o produtor rural, Francisco Hélio Bento, da localidade de Sobrado, zona rural de Orós. "Por aqui a gente conta no dedo quem está plantando", completa.
Um dado é revelador. A Secretaria de Agricultura e Pecuária do Município de Iguatu lançou o programa de preparo de solo mecanizado e apenas 300 agricultores mostraram interesse. "A gente esperava uma demanda elevada", disse a secretária Edileuza Pereira. "A incerteza de que haverá chuva suficiente para manter a plantação e as previsões negativas contribuem ainda mais para afastar o agricultor do campo", afirmou.
Em Várzea Alegre, o programa de preparo de solo para o cultivo dos grãos de sequeiro obteve quase 600 inscrições, mas menos da metade está na roça, fazendo o plantio. "A cada ano a gente percebe que é menor o número de agricultores que decide plantar, talvez por causa das secas seguidas e perdas da lavoura e prejuízos", analisa o secretário de Agricultura do Município, André Fiúza. "As chuvas vieram, mas de forma irregular, localizadas", constatou.
A reportagem percorreu, nos últimos dias, cerca de 200 Kmem rodovias estaduais e vias municipais e constatou a realidade de que a maioria das áreas de cultivo está ociosa. "A gente conta no dedo quem plantou por aqui", disse o agricultor, aposentado, Francisco Dias, 73 anos, na localidade de Açude do Governo, zona rural do distrito de Alencar, no município de Iguatu. "Meu filho, são poucos os que querem trabalhar na roça". Neste ano, ele cultivou sozinho meio hectare de milho e feijão.

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