AJUSTES NO VAREJO
Aperto no crédito com juros elevados e menos parcelas
23.03.2015
Nos bancos, o aumento dos juros está atingindo principalmente as linhas de financiamento imobiliário
A dificuldade na tomada de crédito, um dos efeitos esperados com o aumento da taxa básica, a Selic - fixada em 12,75% ao ano, no início do mês -, já deixa marcas em alguns setores da economia. Aliados ao endividamento das famílias, os juros mais altos e o menor número de parcelas disponíveis para financiar uma compra desenham um cenário cada vez mais real de retração no consumo, o que - pelo menos é o que se espera - possa ajudar no controle da inflação.
No comércio, esse impacto deve atingir com mais intensidade os segmentos cujo capital de giro depende do próprio empresário, segundo avalia o economista Alex Araújo. "São os segmentos de semiduráveis, como vestuário, calçados e cosméticos, porque as fontes de financiamento deles também estão reduzindo as parcelas", relaciona.
Adequação
O presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), Severino Ramalho Neto, reconhece que o momento é delicado para o varejo, mas encara as dificuldades como "obstáculos a serem vencidos". "O mercado continua vivo, as necessidades de consumo estão presentes, o comércio e a indústria vão ter que se adequar a isso. E o consumidor é sábio, vai saber o momento certo de usar o crédito", explica, acrescentando que esse é um momento bom para que os clientes barganhem descontos.
Terceiro aumento
Levantamento realizado pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) aponta o comércio com a terceira maior variação da taxa de juros para pessoa física entre os dois primeiros meses deste ano (3,03%), fechando em 5,10% ao mês, em fevereiro. O valor, segundo a associação, é o maior desde dezembro de 2011, quando atingiu 5,36% ao mês.
Pessoa física
À frente das taxas do comércio para pessoa física, na escala dos aumentos, estão os juros praticados pelos bancos para o financiamento de automóveis, que chegaram a 1,99% ao mês em fevereiro, um crescimento de 4,74% em relação a janeiro.
Em seguida, os juros do cartão de crédito, que aumentaram 4,01% entre janeiro e fevereiro, fechando em 11,67%, a maior taxa desde julho de 1999, segundo a Anefac.
Financiamento imobiliário
Nas instituições financeiras, a elevação dos juros atinge principalmente as linhas de financiamento imobiliário, como na Caixa Econômica Federal, por exemplo, onde algumas operações de financiamento foram ajustadas ainda em janeiro.
De acordo com a assessoria de comunicação da Caixa, o ajuste vale para as operações residenciais contratadas com recursos da poupança (SBPE). Na nova tabela da Caixa, a chamada taca balcão, no Sistema de Financiamento Imobiliário (SFI) subiu de 9,20% para 11%, enquanto a taxa de relacionamento, ainda na mesma linha de financiamento, foi de 9,10% para 10,70%.
Já no Banco do Brasil, a taxa nominal para aquisição de imóvel residencial é de 4,5% ao ano, mais a Taxa Referencial (TR), enquanto os imóveis comerciais têm como base a taxa de 9,4% ao ano, além da TR.
Bradesco, Santander, Itaú e Banco do Nordeste não apresentaram alterações nas taxas de juros e prazos de financiamentos, segundo informaram as assessorias de imprensa.
Veículos
No financiamento de veículos, a alta da taxa de juros trouxe junto a redução da quantidade de parcelas, segundo mostra o estudo da Anefac.
Entre fevereiro do ano passado e igual mês de 2015, o prazo máximo de financiamento de veículos reduziu em 12 meses, caindo de 72 para 60 meses.
Dificuldade
Para o presidente da Federação Nacional de Distribuição de Veículos Automotores no Ceará (Fenabrave-CE), Fernando Ponte, os prazos não são a maior dificuldade encontrada. "O problema é que os bancos estão muito seletivos, para se aprovar um cadastro, hoje, é preciso que tenha crédito muito bom", esclarece. Apesar desses obstáculos, avalia Pontes, a venda de automóveis, pelo menos no Estado, ainda não foi impactada pelas elevações nos juros.

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