ORGANIZAÇÃO COMERCIAL
Brasileiro vence candidatura ao comando da OMC
08.05.2013
É a primeira vez que um brasileiro assume a direção-geral do organismo máximo do comércio internacional
O brasileiro Roberto Azevêdo vai assumir o comando da Organização Mundial do Comércio (OMC). O diplomata disputava com o candidato mexicano Herminio Blanco, ex-ministro do Comércio de seu país, e ganhou ontem indicação formal da entidade ao cargo.
Embaixador do Brasil na Organização Mundial do Comércio desde 2008 e especialista em comércio, Roberto de Azevêdo é considerado o homem que conhece profundamente os meandros da instituição FOTO: REUTERS
Sua vitória será formalizada em 14 de maio, em reunião com todos os países-membros da organização. Azevêdo substituirá o diretor-geral Pascal Lamy. O Itamaraty confirmou no início da tarde de ontem a indicação. É a primeira vez que um latino-americano assume a organização internacional. O brasileiro assume o posto a partir de 1º de setembro.
Até o início da manhã de ontem, já haviam sido contabilizados 93 votos a favor de Azevêdo. Para vencer, é preciso ter 80 votos, ou seja, maioria do total de 159 países-membros. Além disso, tem peso fundamental a representatividade do candidato em todos os continentes. O Brasil tem voto de grande parte das Américas, dos Brics (bloco de países formado por Brasil, Rússia, China e África do Sul) e dos países africanos.
Os europeus, que na última segunda-feira haviam decidido se posicionar em bloco contra o candidato do Brasil, votaram ontem com os americanos, que não revelaram seu voto. Nos bastidores, no entanto, representantes dos EUA revelaram que o estilo de Azevêdo os agradava.
"DG" é como todo mundo na OMC se refere ao diretor geral da instituição. Mas a abreviação ganhou outra conotação depois que Azevêdo lançou sua candidatura. "DG" virou também a sigla para "Damn Gourgeous": algo como "lindo para caramba", em inglês. Baiano de olhos verdes, com porte atlético, simpatia e inteligência para esbanjar, Azevêdo, de 55 anos, casado com a embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Azevêdo, com quem tem três filhas, já tem seu fã clube na organização.
Sua campanha, no entanto, se concentrou no essencial: embaixador do Brasil na OMC desde 2008, especialista em comércio, ele é considerado o homem que conhece profundamente os meandros da instituição.
Novo cenário
A escolha de Roberto Azevêdo para o comando da OMC representa a vitória de um profissional competente e preparado para a vaga e, de certa forma, também corresponde a uma conquista para o Brasil, de acordo com especialistas.
Segundo o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), José Flávio Sombra Saraiva, o embaixador é um dos melhores negociadores e conhecedor técnico dos entraves da instituição. "Sua escolha foi adequada em função de suas próprias capacidades pessoais de bom negociador e homem que busca a conciliação entre posições contrárias. Conhece por dentro a OMC, personagens e dificuldades política e institucionais. A vitória é dele, antes de ser do Brasil".
Para o economista e coordenador da graduação em Relações Internacionais da Ibmec, José Luiz Niemeyer, a escolha do nome do embaixador brasileiro é fundamental do ponto de vista institucional para o Brasil, que hoje ocupa uma posição "suis generis" na economia mundial. "O Brasil meio que, do ponto de vista institucional, perdia espaço. É importante ter um representante dentro de um importante organismo internacional".
Niemeyer acredita que temas de interesse da economia brasileira, como a questão cambial, só devem ser levados à agenda da OMC pelo novo diretor-geral se for uma demanda do bloco. Segundo ele, o principal desafio de Azevêdo será normatizar o comércio numa época de crise.
Já Sombra Saraiva avalia que ele deverá discutir a revisão das políticas comerciais unilaterais ou bilaterais que tomaram conta do mundo.
OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Escolha mostra que País aprendeu a negociar
A escolha do embaixador Roberto Azevêdo para ocupar o cargo de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) representa, mais uma vez, as mudanças ocorridas quanto à descentralização da política internacional. Nota-se que há um momento em que é conquistada a oportunidade para que outros países possam colocar para o sistema internacional os seus modelos de política externa, com um maior destaque para as políticas econômicas. E, no caso do Brasil, a situação não é diferente. Azevêdo na liderança da OMC é resultado da trajetória da política externa brasileira marcada pela conciliação e, também, pela liderança deste país junto ao Mercosul, IBAS e, mais recentemente, aos BRICS. Deixar o cargo de embaixador na Missão Permanente do Brasil para a Organização Mundial do Comércio em Genebra e assumir o de diretor-geral desta mesma instituição é aceitar o desafio de estabelecer uma política de negociação para 159 países. Todos estes fatores servem de poder de barganha para a atuação brasileira na liderança de organismos multilaterais e é um exemplo claro de que o Brasil aprendeu a negociar.
Maurício VieiraMestre em relações internacionais pela Universidade de Coimbra
Dilma comemora eleição
Brasília. A presidente Dilma Rousseff parabenizou, ontem, o embaixador Roberto Carvalho de Azevêdo pela eleição para a diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). O brasileiro disputou com o mexicano Herminio Blanco, e assume o cargo no dia 31 de agosto, substituindo o francês Pascal Lamy.
Para a presidente, a eleição de Azevêdo revela o compromisso de levar a OMC na direção de um ordenamento econômico mundial mais justo FOTO: REUTERS
Dilma telefonou para Azevêdo por volta das 15h, e manifestou a satisfação pela escolha do brasileiro para liderar a OMC em um momento no qual o mundo se recupera da crise financeira de 2008.
"Ainda sofrendo os efeitos da crise mundial iniciada em 2008, caberá à OMC nos próximos anos dar um novo, equilibrado e vigoroso impulso ao comércio mundial, fundamental para que a economia global entre em um novo período de crescimento e justiça social", diz a nota assinada pela presidente.
Ela disse que governo brasileiro reitera que a apresentação do nome de Roberto Azevêdo para a eleição levou em conta "sua experiência e compromisso" para levar a OMC "na direção de um ordenamento econômico mundial mais dinâmico e justo".
Na nota, a presidente agradece o apoio recebido pelo candidato brasileiro de governos de todo o mundo em todas as etapas da votação. "Essa não é uma vitória do Brasil, nem de um grupo de países, mas da Organização Mundial do Comércio".
Mudanças
Para o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, a eleição do embaixador Roberto de Azevêdo para a diretoria-geral da OMC representa que há uma "ordem internacional em transformação". Segundo ele, significa que os países em desenvolvimento e pobres avançam nas suas conquistas
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O brasileiro Roberto Azevêdo vai assumir o comando da Organização Mundial do Comércio (OMC). O diplomata disputava com o candidato mexicano Herminio Blanco, ex-ministro do Comércio de seu país, e ganhou ontem indicação formal da entidade ao cargo.
Embaixador do Brasil na Organização Mundial do Comércio desde 2008 e especialista em comércio, Roberto de Azevêdo é considerado o homem que conhece profundamente os meandros da instituição FOTO: REUTERSSua vitória será formalizada em 14 de maio, em reunião com todos os países-membros da organização. Azevêdo substituirá o diretor-geral Pascal Lamy. O Itamaraty confirmou no início da tarde de ontem a indicação. É a primeira vez que um latino-americano assume a organização internacional. O brasileiro assume o posto a partir de 1º de setembro.
Até o início da manhã de ontem, já haviam sido contabilizados 93 votos a favor de Azevêdo. Para vencer, é preciso ter 80 votos, ou seja, maioria do total de 159 países-membros. Além disso, tem peso fundamental a representatividade do candidato em todos os continentes. O Brasil tem voto de grande parte das Américas, dos Brics (bloco de países formado por Brasil, Rússia, China e África do Sul) e dos países africanos.
Os europeus, que na última segunda-feira haviam decidido se posicionar em bloco contra o candidato do Brasil, votaram ontem com os americanos, que não revelaram seu voto. Nos bastidores, no entanto, representantes dos EUA revelaram que o estilo de Azevêdo os agradava.
"DG" é como todo mundo na OMC se refere ao diretor geral da instituição. Mas a abreviação ganhou outra conotação depois que Azevêdo lançou sua candidatura. "DG" virou também a sigla para "Damn Gourgeous": algo como "lindo para caramba", em inglês. Baiano de olhos verdes, com porte atlético, simpatia e inteligência para esbanjar, Azevêdo, de 55 anos, casado com a embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Azevêdo, com quem tem três filhas, já tem seu fã clube na organização.
Sua campanha, no entanto, se concentrou no essencial: embaixador do Brasil na OMC desde 2008, especialista em comércio, ele é considerado o homem que conhece profundamente os meandros da instituição.
Novo cenário
A escolha de Roberto Azevêdo para o comando da OMC representa a vitória de um profissional competente e preparado para a vaga e, de certa forma, também corresponde a uma conquista para o Brasil, de acordo com especialistas.
Segundo o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), José Flávio Sombra Saraiva, o embaixador é um dos melhores negociadores e conhecedor técnico dos entraves da instituição. "Sua escolha foi adequada em função de suas próprias capacidades pessoais de bom negociador e homem que busca a conciliação entre posições contrárias. Conhece por dentro a OMC, personagens e dificuldades política e institucionais. A vitória é dele, antes de ser do Brasil".
Para o economista e coordenador da graduação em Relações Internacionais da Ibmec, José Luiz Niemeyer, a escolha do nome do embaixador brasileiro é fundamental do ponto de vista institucional para o Brasil, que hoje ocupa uma posição "suis generis" na economia mundial. "O Brasil meio que, do ponto de vista institucional, perdia espaço. É importante ter um representante dentro de um importante organismo internacional".
Niemeyer acredita que temas de interesse da economia brasileira, como a questão cambial, só devem ser levados à agenda da OMC pelo novo diretor-geral se for uma demanda do bloco. Segundo ele, o principal desafio de Azevêdo será normatizar o comércio numa época de crise.
Já Sombra Saraiva avalia que ele deverá discutir a revisão das políticas comerciais unilaterais ou bilaterais que tomaram conta do mundo.
OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Escolha mostra que País aprendeu a negociar
A escolha do embaixador Roberto Azevêdo para ocupar o cargo de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) representa, mais uma vez, as mudanças ocorridas quanto à descentralização da política internacional. Nota-se que há um momento em que é conquistada a oportunidade para que outros países possam colocar para o sistema internacional os seus modelos de política externa, com um maior destaque para as políticas econômicas. E, no caso do Brasil, a situação não é diferente. Azevêdo na liderança da OMC é resultado da trajetória da política externa brasileira marcada pela conciliação e, também, pela liderança deste país junto ao Mercosul, IBAS e, mais recentemente, aos BRICS. Deixar o cargo de embaixador na Missão Permanente do Brasil para a Organização Mundial do Comércio em Genebra e assumir o de diretor-geral desta mesma instituição é aceitar o desafio de estabelecer uma política de negociação para 159 países. Todos estes fatores servem de poder de barganha para a atuação brasileira na liderança de organismos multilaterais e é um exemplo claro de que o Brasil aprendeu a negociar.
Maurício VieiraMestre em relações internacionais pela Universidade de Coimbra
Dilma comemora eleição
Brasília. A presidente Dilma Rousseff parabenizou, ontem, o embaixador Roberto Carvalho de Azevêdo pela eleição para a diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). O brasileiro disputou com o mexicano Herminio Blanco, e assume o cargo no dia 31 de agosto, substituindo o francês Pascal Lamy.
Para a presidente, a eleição de Azevêdo revela o compromisso de levar a OMC na direção de um ordenamento econômico mundial mais justo FOTO: REUTERSDilma telefonou para Azevêdo por volta das 15h, e manifestou a satisfação pela escolha do brasileiro para liderar a OMC em um momento no qual o mundo se recupera da crise financeira de 2008.
"Ainda sofrendo os efeitos da crise mundial iniciada em 2008, caberá à OMC nos próximos anos dar um novo, equilibrado e vigoroso impulso ao comércio mundial, fundamental para que a economia global entre em um novo período de crescimento e justiça social", diz a nota assinada pela presidente.
Ela disse que governo brasileiro reitera que a apresentação do nome de Roberto Azevêdo para a eleição levou em conta "sua experiência e compromisso" para levar a OMC "na direção de um ordenamento econômico mundial mais dinâmico e justo".
Na nota, a presidente agradece o apoio recebido pelo candidato brasileiro de governos de todo o mundo em todas as etapas da votação. "Essa não é uma vitória do Brasil, nem de um grupo de países, mas da Organização Mundial do Comércio".
Mudanças
Para o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, a eleição do embaixador Roberto de Azevêdo para a diretoria-geral da OMC representa que há uma "ordem internacional em transformação". Segundo ele, significa que os países em desenvolvimento e pobres avançam nas suas conquistas
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