Um probleminha com o amarelo da camisa canarinha, usada em manifestações políticas, ou mesmo um desgosto que persiste feito mágoa desde o fatídico 7 a 1. Misturado a isso um elenco questionado. Os motivos para a Copa do Mundo na Rússia não cair no gosto da torcida brasileira se espalhavam. Mas aí veio o futebol. E contra o futebol não há argumentos. Ou há, mas se o Brasil ganha, quem liga? Um empate, uma vitória sofrida, um trinfo contundente e, enfim, uma apresentação de encantar: o elenco foi evoluindo e, junto com ele, a torcida cresceu.
“No primeiro jogo, eu não assisti porque não quis. No segundo, estava trabalhando. No terceiro, assisti, mas com certa indiferença.
No jogo contra o México eu torci, já me empolguei. Assisti três dias seguidos aos jogos, estou acompanhando todo o noticiário esportivo. E muita gente está fazendo a mesma coisa”, relata o professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) Tadeu Feitosa. A reviravolta foi tanta, que Tadeu não se permite usar a blusa amarela, mas usa as cores do Brasil, e nos dois dias de intervalo entre as oitavas e as quartas de final ele sentiu saudade. “Pensei: não vou permitir que o descalabro do 7 a 1, somado ao golpe (o impeachment de Dilma Rousseff) que estamos vivendo me tire isso. Quando começa, a gente separa as coisas e vê que ainda existe dentro de nós, no nosso imaginário, um amor pelo futebol-arte”, acredita.
Comprando ainda titubeante uma blusa amarela no Centro de Fortaleza, a turismóloga Mariana Guerra, 24, partilha de sentimento semelhante. “Até que estava empolgada, mas não estava querendo comprar a blusa. Mas prometi que compraria se passasse pras quartas de final. Aí vou assistir a Brasil e Bélgica uniformizada”, conta.
Como Mariana, outros torcedores de última hora têm surgido. A vendedora autônoma Neide Melo, 48, instalada na Liberato Barroso, comemora as vendas que, depois que o Brasil passou do México, pularam de 40 camisas para 70 blusas canarinhas por dia, em média. “Principalmente em termos das camisas do Neymar tava tudo encostado aqui. O pessoal comprava sem nome de jogador. Mas os jogadores se destacando, (os torcedores) começaram a procurar”, relata. Ainda assim, as que mais saem são as blusas azuis do segundo uniforme, e não as amarelas”, diz.
A empolgação é tanta que a Copa tem conquistado até quem não é muito fã de futebol. O jornalista Arthur Gadelha, 22, conta que não sabia nem o que era impedimento, mas depois de Brasil e Sérvia pegou gosto por assistir até mesmo jogos secundários. “ Eu achava que a Copa tava ‘flopada’. Mas me empolguei”, brinca. O publicitário Iuri Torres, 25, conta que numa família de torcedores sempre foi “o do contra”, e, mesmo sendo espectador de Copas, como o Brasil já ia na quarta tentativa do hexa, já tinha desistido de torcer. “No último jogo, assisti no trabalho do começo ao fim e torci mesmo. Mandei fazer até uma camisa escrito assim: ‘O hexa não tá fácil, mas eu tô’, brinca.
TORCIDA SUL-AMERICANA
Reforço equatoriano
Sem a participação do Equador na Copa da Rússia, a família Carbajal, de passagem por Fortaleza, torce pelas seleções sul-americanas.
“Menos pela Argentina”, brinca o caçula Diego, 13. “Agora, dividimos a torcida entre Brasil e Uruguai”, conta o pai Pablo, 45.
O FUTEBOL VAI ALÉM
Torcida política
O estudante universitário Anderson Torres, 27, começou a Copa em dúvida se torceria.. “O que me fez mudar de ideia foi perceber que era maior o futebol era maior que a CBF. O espaço para gente negra, pobre, à margem, continua sendo o futebol”, diz.



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