PERSEVERANÇA
Trabalhadores desafiam o tempo
A prática mostra que o trabalho, além de garantir a cidadania, ajuda a passar o tempo e a ter qualidade de vida
00:00 · 08.11.2015 por Ellen Freitas/Honório Barbosa - Colaboradores
Aracati/Iguatu. No espremido quartinho localizado na Rua Tabelião João Paulo, 16, Aracati, em meio a tumultuada pilha de banquinhos de madeira, Francisco Xavier da Silva, o "Seu Xavier", 74 anos, senhor baixinho, de cabeleira grisalha, casado e pai de um casal, com curiosidade espia o movimento da rua entre um corte de cabelo e outro, entre uma barba por fazer e outra. Com as mãos firmes ao segurar a tesoura dentada ele, que é um dos barbeiros mais antigos e conhecidos da Terra dos Bons Ventos, reserva espaço para falar de si e agradecer aos que lhe fazem uma visita.
Com os apetrechos arrumadinhos em cima da mesa de madeira, herdada da mãe com quem não conviveu, Seu Xavier vai puxando pela memória e contando os causos pelos quais passou. "É um dom que Deus me deu", diz ele, começando a desvendar sua história ao mesmo tempo em que busca justificar estar todos os dias no trabalho, no auge da melhor idade, com a hora de chegada pontualmente às 6h da manhã e sem ter hora para voltar para casa, para a mulher e para filha com quem convive.
Seu Xavier perdeu a mãe aos 28 dias de vida: ela tinha 23 anos. A morte prematura veio de uma fatalidade em decorrência de uma "espinha carnal", segundo ele explica. "Naquele tempo só tinha um médico. Minha mãe estava de resguardo de mim. Ela foi espremer uma espinha verde e depois cutucou com uma agulha e adoeceu de tétano", conta. A vacina antitetânica ainda era pouco acessível em algumas cidades do Interior, em 1941. Mesmo assim, ele fala com carinho da mãe com que não chegou a conhecer, carregando sempre consigo uma foto sua, para lembrar de sua beleza e matar a tamanha saudade.
Do trabalho, que ele conta cheio de orgulho que começou novo, aos 14 anos, seguindo os passos do pai, do avô e do tio, que também eram barbeiros. "Eu novo ia para Itaiçaba de quinta a domingo trabalhar de barbeiro. Ia aprender e fazia o serviço, do corte à barba, e voltava pro Aracati", esclarece. Desde então, nunca abandonou a profissão pela qual tomou gosto e agregou o trabalho de sapateiro, ainda com 18 anos, pelo qual também tem zelo e cuidado.
Como se não bastasse dividir a rotina entre cortes e engraxadas, o barbeiro também se viu comerciante: vende banquinhos de madeira e churrasqueira. "Quando não tem cabelo pra cortar, nem sapato para consertar, eu venho lixar um tamborete desse. Aqui nunca falta o que fazer, é onde completo a renda", diz ele, revelando ser aposentado e que o trabalho é uma forma de interagir com outras pessoas e ocupar a cabeça.
Seu Xavier se orgulha de ser procurado pelos "doutores de gravata", como ele define os bancários, médicos e advogados que já disputaram espaço entre as quinquilharias da sua barbearia e sentaram na Ferrante 1960, cadeira de barbearia vermelha, comprada de segunda mão há 40 anos. "Não tem ninguém aqui que saiba fazer um social especial como eu faço", diz vaidoso sobre sua especialidade em corte de cabelo masculino.
Apesar da fama, ele lamenta que o setor de barbearia esteja acabando, dizendo que, por conta do grande número de salões que vem surgindo ofertando serviços unissex, o trabalho de barbeiro, como o dele, fica para uma clientela diferenciada.
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