PERTO DOS BRASILEIROS
Após abençoar pacientes, Francisco vai a Manguinhos
25.07.2013
Para pesquisador de religião, a aproximação do papa com os pobres e os jovens pode alterar os rumos da Igreja
Rio de Janeiro. A agenda do papa Francisco, em sua primeira viagem internacional como sucessor de Bento XVI, mostra um pontífice preocupado em se aproximar dos mais humildes e necessitados.
PONTÍFICE dá abraço em dependente químico durante visita ao Hospital São Francisco FOTO: AG. BRASIL
Depois de ser recepcionado por frades na capela do hospital São Francisco de Assis, na Tijuca (zona norte do Rio), ele abençoou dez pacientes internados na unidade. Entre eles estava Maria da Conceição de Souza, 49, que é cega. "Não vejo o papa com os olhos da carne, mas o vejo com os olhos do coração", disse.
Novos rumos
O coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rodrigo Franklin de Sousa, enfatiza que "o papa representa a possibilidade de renovação da Igreja Católica, numa direção que retoma as reformas iniciadas no Concílio Vaticano II (1962-1965) e das quais a igreja havia se distanciado nos últimos pontificados".
Assim, "a maior aproximação de Francisco com o povo, os pobres e os jovens pode realmente alterar os rumos da Igreja", acredita Rodrigo Franklin.
Para o especialista, até agora, os protestos que ocorreram na visita do papa não atrapalharam significativamente sua trajetória no País. "Francisco sempre se mostrou favorável a manifestações públicas, como as que varreram o Brasil recentemente, de forma que ele deve manter uma atitude respeitosa aos protestos, mesmo que sejam de alguma forma contra a Igreja".
Garotos jogam futebol no Complexo de Manguinhos, onde o chefe maior da Igreja Católica fará uma visita na manhã de hoje FOTO: REUTERS
Conforme Franklin, a tendência é que o papa atente para o conteúdo dos protestos e possivelmente tente encontrar vias de diálogo com a sociedade e suas reivindicações.
Esperança
Para o padre Francisco Ivan, coordenador de pastoral da Arquidiocese de Fortaleza, "é importante compreender que o papa vem trazendo toda uma nova esperança, nessa postura de bom relacionamento com os fiéis, inclusive os mais humildes. Entendo que é um novo pentecostes (a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos) na Igreja, com todos juntos no mesmo caminho, o da esperança".
Outro ponto destacado pelo religioso é o de que os jovens têm papel importante e que devemos apoiar sua articulação. "Essas mensagens são também para os pastores, para os bispos, de que as coisas não serão mais as mesmas e que devemos trilhar o caminho da evangelização".
No entender do padre Ivan, a presença do papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) é um sinal de transformação da Igreja, que deve estar voltada para a evangelização e também para as questões sociais. "Ele quer ser essa presença do próprio Cristo, de que a Igreja precisa andar para a frente, sem volta ao passado, ao lado da comunidade, das pessoas".
Artista de rua faz grafitagem com imagem de santos no Centro do Rio. O concurso Arte Sem Fronteiras faz parte da programação da Jornada FOTO: REUTERS
Outro aspecto ressaltado pelo padre Ivan é de que Francisco "não veio com o objetivo de angariar mais fiéis e sim que aqueles que seguem Cristo o façam com fé autêntica, que tenha raízes. Enfim, o papa transmite sinais de vida que nunca se apagarão".
Visita aos humildes
A ida à comunidade de Varginha, uma das doze favelas do Complexo de Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro, simboliza essa tentativa de aproximação com a população mais humilde da cidade. No local, foi uma instalada uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em janeiro deste ano.
A Igreja Católica acompanha com atenção a relação entre moradores e governo do Rio nas favelas ocupadas por UPPs. Segundo o padre Luiz Antônio Pereira, coordenador da pastoral das favelas da Arquidiocese do Rio, o comando das UPPs não pode definir o que fazem ou não as pessoas. "Nos últimos dez anos, as lideranças comunitárias foram cooptadas pelo poder público, pelo tráfico de drogas ou pelas milícias. Essa tutela agora não pode ser da UPP", afirma.
"O governo parece não ter muita clareza sobre qual será o futuro das UPPs. É claro que não queremos que o tráfico ou as milícias sejam os mediadores da comunidade junto ao poder público, mas também isso não pode acontecer sob a tutela policial", disse o padre Pereira.
Segundo ele, isso já foi discutido em reuniões de representantes da Igreja com o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame e presidentes de associações de moradores.
Papa leva clima de paz à comunidade
Rio de Janeiro. O dia de ontem foi marcado por expectativa entre os moradores da comunidade de Varginha, na zona norte do Rio, que aguardavam ansiosamente a visita que o papa Francisco fará ao local hoje. Sem luxo e ostentação, a população espera um pontífice tão simples quanto seu rebanho.
Blusas com imagens do papa Francisco são vendidas nas ruas do Complexo de Manguinhos, na zona norte do Rio FOTO: REUTERS
Desde muito cedo, os fiéis começaram os preparativos para recepcionar o convidado ilustre. Coberto com toalha e ornado com velas que trazem o tema da Jornada Mundial da Juventude, o altar da Capela São Jerônimo Emiliani foi enfeitado cuidadosamente para receber a bênção do Santo Padre.
Além do púlpito, a capela, que na semana passada completou 42 anos de existência, não recebeu grandes reformas para o importante evento católico. No local, 60 pessoas participarão da solenidade, dentre elas toda a comitiva papal.
Varginha tem aproximadamente 1.300 moradores e muitos deles são nordestinos, como a dona Amara Marinho, 83 anos.
Emoção
A pernambucana, que mora na comunidade há 50 anos, é uma das sete moradoras escolhidas para possivelmente acolher, durante alguns minutos, o papa.
"Esse é um momento muito marcante. Já estou esperando por isso desde maio. Tomei meus remédios para que ocorra tudo bem quando ele chegar", contou emocionada a aposentada enquanto preparava o café, que disse ser para Francisco.
Para o carteiro José Maurício, a honra de receber a visita do pontífice é indescritível. "Ele é simples como a gente. Acho que ele vai falar e cumprimentar todo mundo", afirmou o mineiro.
Roteiro
O membro do comitê de recepção do papa na comunidade, Everaldo Oliveira, declarou esperar com bastante alegria a visita do religioso argentino, que, para ele, é "um homem tão simples como a comunidade, que o receberá de braços abertos".
Segundo Everaldo, o pontífice seguirá de carro pela Rua Leopoldo Bulhões. Na entrada da comunidade, visitará a capela e depois, a pé, percorrerá os 200 metros entre a igreja e o campo de futebol. No trajeto, vai parar na casa de alguns moradores, para dar a sua bênção.
"No campo, ele vai ser saudado pela comunidade, vai ter um discurso de boas-vindas. Haverá cânticos e ele finaliza a visita fazendo um discurso, com palavras de incentivo, dando a sua bênção para os moradores. Quando for embora, deixará alegria no coração das pessoas", disse Everaldo.
Faixa de Gaza
A comunidade de Varginha fica localizada no Complexo de Manguinhos, região conhecida como "Faixa de Gaza", devido aos constantes conflitos e a truculência de traficantes que atuam na região. Em janeiro, o local ganhou uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), mas ainda não é considerado tranquilo. Embora seja breve, a passagem do papa promete levar um pouco de paz para aqueles moradores.
ALISSON BRAGA/ MARCELLA DE LIMAESPECIAL PARA O NACIONA
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PONTÍFICE dá abraço em dependente químico durante visita ao Hospital São Francisco FOTO: AG. BRASIL
Depois de ser recepcionado por frades na capela do hospital São Francisco de Assis, na Tijuca (zona norte do Rio), ele abençoou dez pacientes internados na unidade. Entre eles estava Maria da Conceição de Souza, 49, que é cega. "Não vejo o papa com os olhos da carne, mas o vejo com os olhos do coração", disse.
Novos rumos
O coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rodrigo Franklin de Sousa, enfatiza que "o papa representa a possibilidade de renovação da Igreja Católica, numa direção que retoma as reformas iniciadas no Concílio Vaticano II (1962-1965) e das quais a igreja havia se distanciado nos últimos pontificados".
Assim, "a maior aproximação de Francisco com o povo, os pobres e os jovens pode realmente alterar os rumos da Igreja", acredita Rodrigo Franklin.
Para o especialista, até agora, os protestos que ocorreram na visita do papa não atrapalharam significativamente sua trajetória no País. "Francisco sempre se mostrou favorável a manifestações públicas, como as que varreram o Brasil recentemente, de forma que ele deve manter uma atitude respeitosa aos protestos, mesmo que sejam de alguma forma contra a Igreja".
Conforme Franklin, a tendência é que o papa atente para o conteúdo dos protestos e possivelmente tente encontrar vias de diálogo com a sociedade e suas reivindicações.
Esperança
Para o padre Francisco Ivan, coordenador de pastoral da Arquidiocese de Fortaleza, "é importante compreender que o papa vem trazendo toda uma nova esperança, nessa postura de bom relacionamento com os fiéis, inclusive os mais humildes. Entendo que é um novo pentecostes (a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos) na Igreja, com todos juntos no mesmo caminho, o da esperança".
Outro ponto destacado pelo religioso é o de que os jovens têm papel importante e que devemos apoiar sua articulação. "Essas mensagens são também para os pastores, para os bispos, de que as coisas não serão mais as mesmas e que devemos trilhar o caminho da evangelização".
No entender do padre Ivan, a presença do papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) é um sinal de transformação da Igreja, que deve estar voltada para a evangelização e também para as questões sociais. "Ele quer ser essa presença do próprio Cristo, de que a Igreja precisa andar para a frente, sem volta ao passado, ao lado da comunidade, das pessoas".
Outro aspecto ressaltado pelo padre Ivan é de que Francisco "não veio com o objetivo de angariar mais fiéis e sim que aqueles que seguem Cristo o façam com fé autêntica, que tenha raízes. Enfim, o papa transmite sinais de vida que nunca se apagarão".
Visita aos humildes
A ida à comunidade de Varginha, uma das doze favelas do Complexo de Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro, simboliza essa tentativa de aproximação com a população mais humilde da cidade. No local, foi uma instalada uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em janeiro deste ano.
A Igreja Católica acompanha com atenção a relação entre moradores e governo do Rio nas favelas ocupadas por UPPs. Segundo o padre Luiz Antônio Pereira, coordenador da pastoral das favelas da Arquidiocese do Rio, o comando das UPPs não pode definir o que fazem ou não as pessoas. "Nos últimos dez anos, as lideranças comunitárias foram cooptadas pelo poder público, pelo tráfico de drogas ou pelas milícias. Essa tutela agora não pode ser da UPP", afirma.
"O governo parece não ter muita clareza sobre qual será o futuro das UPPs. É claro que não queremos que o tráfico ou as milícias sejam os mediadores da comunidade junto ao poder público, mas também isso não pode acontecer sob a tutela policial", disse o padre Pereira.
Segundo ele, isso já foi discutido em reuniões de representantes da Igreja com o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame e presidentes de associações de moradores.
Papa leva clima de paz à comunidade
Rio de Janeiro. O dia de ontem foi marcado por expectativa entre os moradores da comunidade de Varginha, na zona norte do Rio, que aguardavam ansiosamente a visita que o papa Francisco fará ao local hoje. Sem luxo e ostentação, a população espera um pontífice tão simples quanto seu rebanho.
Desde muito cedo, os fiéis começaram os preparativos para recepcionar o convidado ilustre. Coberto com toalha e ornado com velas que trazem o tema da Jornada Mundial da Juventude, o altar da Capela São Jerônimo Emiliani foi enfeitado cuidadosamente para receber a bênção do Santo Padre.
Além do púlpito, a capela, que na semana passada completou 42 anos de existência, não recebeu grandes reformas para o importante evento católico. No local, 60 pessoas participarão da solenidade, dentre elas toda a comitiva papal.
Varginha tem aproximadamente 1.300 moradores e muitos deles são nordestinos, como a dona Amara Marinho, 83 anos.
Emoção
A pernambucana, que mora na comunidade há 50 anos, é uma das sete moradoras escolhidas para possivelmente acolher, durante alguns minutos, o papa.
"Esse é um momento muito marcante. Já estou esperando por isso desde maio. Tomei meus remédios para que ocorra tudo bem quando ele chegar", contou emocionada a aposentada enquanto preparava o café, que disse ser para Francisco.
Para o carteiro José Maurício, a honra de receber a visita do pontífice é indescritível. "Ele é simples como a gente. Acho que ele vai falar e cumprimentar todo mundo", afirmou o mineiro.
Roteiro
O membro do comitê de recepção do papa na comunidade, Everaldo Oliveira, declarou esperar com bastante alegria a visita do religioso argentino, que, para ele, é "um homem tão simples como a comunidade, que o receberá de braços abertos".
Segundo Everaldo, o pontífice seguirá de carro pela Rua Leopoldo Bulhões. Na entrada da comunidade, visitará a capela e depois, a pé, percorrerá os 200 metros entre a igreja e o campo de futebol. No trajeto, vai parar na casa de alguns moradores, para dar a sua bênção.
"No campo, ele vai ser saudado pela comunidade, vai ter um discurso de boas-vindas. Haverá cânticos e ele finaliza a visita fazendo um discurso, com palavras de incentivo, dando a sua bênção para os moradores. Quando for embora, deixará alegria no coração das pessoas", disse Everaldo.
Faixa de Gaza
A comunidade de Varginha fica localizada no Complexo de Manguinhos, região conhecida como "Faixa de Gaza", devido aos constantes conflitos e a truculência de traficantes que atuam na região. Em janeiro, o local ganhou uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), mas ainda não é considerado tranquilo. Embora seja breve, a passagem do papa promete levar um pouco de paz para aqueles moradores.
ALISSON BRAGA/ MARCELLA DE LIMAESPECIAL PARA O NACIONA
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