TECNOLOGIA ASSISTIVA
Cearenses criam ´mouse´ para cegos
08.04.2013
O Projeto Portáctil investe em dispositivos que facilitam a leitura, em braile, de conteúdos digitais e impressosO dispositivo lê o material e, com superfície tátil, faz a transcrição em braile Fotos: Viviane Pinheiro
Olfato, paladar, tato, audição. Quando a experiência do "olhar" não está ao alcance físico, são os outros sentidos do ser humano que possibilitam uma comunicação eficiente em sociedade. No Brasil, segundo o Censo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, cerca de 35,7 milhões de pessoas têm algum nível de deficiência visual, sendo mais de 506 mil efetivamente cegas. Diante desse número, o investimento em acessibilidade torna-se uma prioridade sócio-educacional, mobilizando programas de tecnologia como o Projeto Portáctil, desenvolvido no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).
A vontade de investir em tecnologia assistiva inquietava, desde 2002, o professor e pesquisador do IFCE, Anaxágoras Maia Girão. "Como engenheiro, eu gosto de pensar em sistemas de automação que dão maior conforto para pessoas com deficiência visual", afirma. Junto a essa inquietação, surgiu, em 2009, uma parceria com a empresa AED Tecnologia, incubada no IFCE, que possibilitou a criação do Projeto Portáctil.
O professor Anaxágoras Girão diz que tinha vontade de investir em tecnologia assistiva desde 2002, com o objetivo de auxiliar deficientes visuaisA ideia inicial do projeto visava construir um dispositivo em forma de caneta, que possibilitasse a transcrição de conteúdo impresso para o braille. A partir do aperfeiçoamento das pesquisas e da apresentação do projeto ao Ministério da Educação, em 2010, algumas mudanças foram estabelecidas. Com o recurso financeiro do governo federal, o projeto passou a ser desenvolvido pelo Laboratório de Pesquisa Aplicada e Desenvolvimento em Automação (Lapada) do IFCE, sob a coordenação do professor Anaxágoras Girão. A cela braile existente na caneta - um dispositivo com oito pinos móveis que formam os caracteres em braile - deu lugar a um dispositivo portátil de navegação, semelhante a um mouse, com três celas na parte superior. Os dispositivo também armazena arquivos de texto, cujo conteúdo é transcrito em braile para o usuário.
Na configuração atual, o dispositivo de navegação braile atua no dedo do usuário, proporcionando o entendimento e a fluência dos caracteres. Abaixo das celas, seis botões atuam com funções auxiliares na navegação. Nas laterais, ficam os botões para voltar e adiantar as linhas do texto. Já na porção inferior, fica localizado o leitor óptico e o sensor para direcionamento.
O usuário cego também pode gerar o próprio conteúdo, utilizando tablets ou smartphones. A conexão com esses dispositivos é feita através de Bluetooth. Nos tablets, o Portáctil admite um teclado de silicone, semelhante aos teclados de computadores convencionais. A digitação permite ao usuário retorno auditivo, facilitando o processo de produção textual.
Desafios
Mesmo facilitando a digitação e a leitura, o sistema ainda se encontra em fase de desenvolvimento desde 2010. Segundo o coordenador do projeto, Anaxágoras Girão, a primeira etapa de concepção e usabilidade junto aos usuários já foi vencida. O desafio agora é o apoio financeiro para distribuir o serviço.
O financiamento concedido pelo Ministério da Educação, no valor de R$ 1 milhão, possibilitou a criação de 136 equipamentos (tablets com película de silicone, que serve como teclado, e o mouse especial). Além desse recurso, em fase inicial, o projeto contou com R$ 90 mil do Banco do Nordeste. Segundo Heyde Leão, diretor executivo da empresa AED Tecnologia, os 136 equipamentos já foram entregues à Prefeitura de Fortaleza. Para a finalização do projeto, ainda é preciso produzir 64 equipamentos e realizar a capacitação de professores e alunos nas escolas municipais. "É preciso dar atenção a esse sistema, que só vai para frente a partir de duas coisas: suporte e acompanhamento", afirma Leão.
O professor Anaxágoras reconhece que o projeto já poderia estar beneficiando os estudantes, mas a burocracia e a recente transição no governo municipal atrasaram o processo. "Com a mudança de gestão, o investimento ficou preso. Então, precisamos esperar um pouco mais para concluir os equipamentos e liberar para as escolas", explica.
Mesmo com a conquista de alguns avanços, o Portáctil ainda precisa de aperfeiçoamento. Segundo Anaxágoras Girão, hoje, o sistema já permite ao aluno ter acesso em braile a um material que o professor disponibiliza em formato digital. No entanto, as expectativas são maiores. "Queremos torná-lo um leitor de livros. A gente quer que o aluno possa levar para casa, escrever uma nota, uma redação, com autonomia", conta o professor
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